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SORORIDADE

Substantivo feminino

Por Sabrina Motta

Após uma temporada de oito apresentações e debates que circularam por Centros de Defesa e de Referência da Mulher, após ouvirmos relatos inspiradores de mulheres que romperam com a situação de opressão que estava dada como destino para suas vidas, após vermos mulheres que ainda buscam sua libertação e emancipação nesse sistema, e principalmente, após observarmos a necessidade de estarmos juntas e compartilharmos nossas feridas em busca de uma cura coletiva, vimos também o quanto seria necessário tentar registrar em palavras uma experiência que para o coletivo As Trapeiras foi única e decisiva para traçarmos nossos próximos passos.

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A idealização desse projeto aconteceu com nosso primeiro contato por meio de uma amiga e parceira trabalhadora da Casa Viviane dos Santos, em Guaianazes, onde participamos de atividades com as mulheres frequentadoras da casa, atividades essas – debates, intervenção cênica e vivencia teatral - que visavam a reflexão individual e coletiva da condição politica, moral e social a qual a mulher está inserida no mundo hoje e sua emancipação para a construção de um sistema igualitário. Nessas trocas pudemos sentir a necessidade de se utilizar a arte como uma ferramenta de provocação subjetiva, percebemos que nossa função como um coletivo artístico dentro daquela casa seria a de provocar, dialetizar e buscar cenicamente respostas para tantas inquietações. Decidimos então construir um espetáculo que dialogasse diretamente com aquelas mulheres e que pudesse coloca-las como atrizes e donas do destino da personagem, fazendo com que juntas pudéssemos buscar soluções a curto, médio ou longo prazo acerca da violência contra a mulher. Esse espetáculo nasceu e se chama Tramarias.

Primeiramente, Tramarias nos proporcionou conhecer mais de perto o trabalho de acolhimento que essas casas desenvolvem. Um acolhimento feito por mulheres e para mulheres, onde qualquer uma independente da região, crença ou classe social, pode ter acesso a psicólogas, advogadas, assistentes sociais que lhe ajudarão a encontrar formas de vencer o medo e denunciar as violências que sofrem. Fomos acolhidas também, ora com bolos e chás, presentes, sorrisos, abraços e palavras de força e sororidade que nos fizeram a cada apresentação ter mais certeza do por que estarmos fazendo aquilo.

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Em muitas casas vimos que as mulheres compartilhavam os afazeres com as outras, independente da função que exerciam, vimos mulheres produzirem o que comeríamos todas numa grande festa após as apresentações, vimos tecelãs, cabelereiras, mães, trabalhadoras de todos tipos, maquiadas, descabeladas, de salto, de chinelo, jovens, idosas e também crianças. O que nos deixa claro que o incrível trabalho que essas casas exercem na comunidade não tem distinção e que as portas são abertas a todas que precisam, e mesmo as que “não” precisam, mas querem ajudar, e isso é um grande exemplo vivido da palavra sororidade.

so·ro·ri·da·de

(latim soror, -oris, irmã + -dade)

Substantivo feminino

 

1. Relação de união, de afeição ou de amizade entre mulheres, semelhante à que idealmente haveria entre irmãs;

 

2. União de mulheres com o mesmo fim, geralmente de cariz feminista.

O trabalho que essas casas desenvolvem tem como base fundamental o mesmo objetivo que o estudo e a prática do feminismo propõe: a consciência de que todas somos seres humanos, independente do gênero e de que não estamos sozinhas.

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Para a nossa superação de um ciclo de violência ou para ajudarmos a superação da outra, é preciso compreender que nós mulheres também reproduzimos o machismo em nossas falas, crenças e atitudes, mas não é por isso que precisamos nos separar ou nos julgar, muito pelo contrário, pois conhecer em que contexto cada uma sobrevive é importante para saber de que forma cada uma pode romper com a opressão, e dessa forma direciona-la para um caminho emancipador. Tendo em mente que podemos direcionar ou receber direcionamentos, mas cada uma é responsável pelo rompimento do seu próprio ciclo. Somos cada ponto cruz que compõe a tapeçaria como um todo, mas quem tem a tesoura é quem a teceu!

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Portanto, consideramos a arte um fio norteador para a busca de caminhos, e uma ferramenta de formação social e para todos os gêneros. Exercer nosso trabalho significa antes de mais nada dialogar com o público, problematizar não apenas a Maria, mas descobrir o que ela tem em comum com todas as outras – ela é mulher! – e não colocar em nossas mãos a responsabilidade de sermos geniais, mas sim de sermos compreendidas por aquelas que estão nos escutando e compreendermos as que estão falando.

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Construímos nesse projeto uma parceria que dará muitos frutos a todas nós, estamos despertas e querendo falar sobre o que nos diz respeito com quem nos diz respeito e para tanto... Continuaremos!

As Trapeiras

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